OBSESSÃO; TIPOS E GRAUS

1 – Tipos de Obsessão

A obsessão comporta vários tipos de expressão, em cujos limites nem sempre é possível estabelecer uma linha divisória. Analisaremos os tipos mais expressivos.

a) Obsessão de encarnado para encarnado

Pessoas obsidiando pessoas existem em grande número. Estão entre nós. Caracterizam-se pela capacidade que têm de dominar mentalmente aqueles que elegem como vítimas. Este domínio mascara-se com os nomes de ciume, inveja, paixão, desejo de poder, orgulho, ódio, e é exercido, às vezes, de maneira tão sutil que o dominado se julga extremamente amado. Até mesmo protegido.

Essas obsessões ocorrem por conta de um amor que se torna tiranizante, demasiadamente possessivo, tolhendo e sufocando a liberdade do outro. É, por exemplo, o marido que limita a liberdade da esposa, mantendo-a sob o jugo de sua vontade; é a mulher que tiraniza o companheiro, escravizando-o aos seus caprichos; são os pais que se julgam no direito de governar os seus filhos, cerceando-lhes toda e qualquer iniciativa; são aqueles que, em nome da amizade, influenciam o outro, mudando-lhe o modo de pensar; exercendo sempre a vontade mais forte, o domínio sobre a que se apresentar mais passiva.

b) Obsessão de desencarnado para desencarnado

São Espíritos que obsidiam Espíritos. Desencarnados que dominam outros desencarnados, são expressões de um mesmo drama que se desenrola tanto na Terra quanto no Plano Espiritual Inferior.

Espíritos endividados e compromissados entre si mesmos, através de associações tenebrosas, de idêntico padrão vibratório, se aglomeram em certas regiões, obedecendo à sintonia e à lei de atração, formando hordas que erram sem destino ou se fixam temporariamente em cidades, colônias, núcleos, enfim, de sombras e trevas. Tais núcleos têm dirigentes, que se proclamam juízes, julgadores, chamando a si a tarefa de distribuir justiça aos Espíritos igualmente culpados e também devotados ao mal, ou endurecidos pela revolta e pela descrença. A ação obsessiva manifestada entre desencarnados está claramente explicada em, pelo menos, duas obras espíritas da atualidade.

Na obra “Libertação” – psicografia de Francisco Cândido Xavier, ditada pelo Espirito André Luiz – temos a oportunidade de conhecer a história de Gregório, ex sacerdote católico que, atuando como poderoso dirigente das trevas, se auto-intitulava juiz e mandatário maior de governo estabelecido numa estranha cidade nas regiões inferiores do Plano Espiritual. Gregório comandava com punho de ferro uma vasta região habitada por Espíritos que apresentavam as mais variadas expressões de distanciamento do bem, sobretudo os denominados julgadores. Estes tomavam conhecimento de ações praticadas por Espíritos desequilibrados, analisava-as e emitiam sentenças condenatórias, mantendo tais Espíritos subjugados.

Em outra obra Espírita, intitulada “Nos bastidores da obsessão”- psicografia de Divaldo Pereira Franco e ditada pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda – há o relato de ações produzidas por outro poderoso obsessor – o doutor Teofrastus – que comandava falange de Espíritos obsidiados, sob o seu domínio, contra os Espíritos encarnados. A história deste infeliz dirigente das trevas – insigne mago grego, quando na Terra, residente na França, queimado pela Inquisição por volta do ano de 1470, em Ruão, após perseguição impiedosa e nefanda – resume-se na sua incapacidade de perdoar àqueles que o perseguiram, deixando dominar-se por doloroso sentimento de vingança.

c) Obsessão de encarnado para desencarnado

Expressões de amor egoísta e possessivo, por parte dos que ainda estão na carne, redundam em fixação mental daqueles que desencarnaram, retendo-os às reminiscências terrestres. Essas emissões mentais constantes, de dor, revolta, remorso e desequilíbrios terminam por imantar o recém desencarnado aos que ficaram na Terra, não lhe permitindo alcançar o equilíbrio de que carece para enfrentar a nova situação. A inconformação e o desespero, pois, advindos da perda de um ente querido, podem transformar-se em obsessão que irá afligi-lo e atormentá-lo. Idêntico processo se verifica quando o sentimento que domina o encarnado é o do ódio, da revolta, etc…

As brigas e os desentendimentos nas disputas de heranças entre herdeiros, fatores geradores de mágoas, podem atrair o Espírito desencarnado, diretamente relacionado com o problema, afligindo-o de tal forma que não consegue se desligar dos familiares. A inconformação pelo retorno ao plano espiritual de um ente querido, a saudade inconsolável ou a tristeza profunda após os funerais são outros fatores de fixação, capazes de manter prisioneiro o desencarnado.

d) Obsessão de desencarnado para encarnado

Sendo a mais conhecida, caracteriza-se pelo domínio de um desencarnado sobre alguém que vive no plano físico. As causas são várias. Citaremos algumas delas.

Amores exacerbados, ódios incoercíveis, dominação absolutista, fanatismo injustificável, avareza incontrolável, morbidez ciumenta, abuso do direito como da força, má distribuições de valores e recursos financeiros, aquisição indigna da posse transitória, paixões políticas e guerreiras, ganância em relação aos bens perecíveis, o orgulho e a presunção, egoísmo nas suas múltiplas facetas são as fontes geratrizes desse funesto condutor de homens, que não cessa de atirá-los nos resvaladouros da loucura, das enfermidades portadoras de síndromes desconhecidas e perturbantes do suicídio direto ou indireto.

e) Obsessão Recíproca

Assim como as almas afins e voltadas para o bem cultivam a convivência amiga e fraterna sob outro aspecto, as criaturas se procuram para locupletar-se das vibrações que permutam e nas quais se comprazem. Essa característica de reciprocidade transforma-se em verdadeira simbiose, quando dois seres passam a viver em regime de comunhão de pensamentos e vibrações. Isto ocorre até mesmo entre os encarnados que se unem através do amor desequilibrado, mantendo um relacionamento enervante. São paixões avassaladoras que tornam os seres totalmente cegos a quaisquer outros acontecimentos e interesses, fechando-se ambos num egoísmo a dois, altamente perturbador. Esses relacionamentos, via de regra terminam em tragédias se um dos parceiros modificar o seu comportamento em relação ao outro.

f) Auto-obsessão

Amiúde se atribuem aos Espíritos maldades de que eles são inocentes. Alguns estados doentios e certas aberrações que se lançam à conta de uma causa oculta, derivam do Espírito do próprio indivíduo. O homem, não raramente é obsessor de si mesmo. É incalculável o número de pessoas que comparecem aos consultórios, queixando-se dos mais diversos males – para os quais não existe medicamentos eficazes – e que são tipicamente portadores de auto-obsessão. São cultivadores de moléstias fantasmas. Vivem voltadas para si mesmos, preocupando-se em excesso com a própria saúde, descobrindo sintomas, dramatizando as ocorrências do dia-a-dia, sofrendo por antecipação situações que jamais chegarão a se realizar, flagelando-se com o ciúme, a inveja, o egoísmo, o orgulho, o despotismo e transformando-se em doentes imaginários, vítimas de sí próprios, atormentados por si mesmos.

2 – Graus da obsessão

A obsessão apresenta caracteres diversos, que é preciso distinguir e que resultam do grau do constrangimento e da natureza dos efeitos que produz. A palavra obsessão é, de certo modo, um termo genérico, pelo qual se designa esta espécie de fenômeno, cujas principais variedades são: a obsessão simples, a fascinação e a subjugação.

a) Obsessão simples

Dá-se a obsessão simples quando um Espírito malfazejo se impõe a um médium, se imiscui, a seu mau grado, nas comunicações que ele recebe, o impede de se comunicar com outros Espíritos e se apresenta em lugar dos que são evocados. Ninguém está obsidiado pelo simples fato de ser enganado por um Espírito mentiroso. O melhor médium se acha exposto a isso, sobretudo, no começo, quando ainda lhe falta experiência necessária, do mesmo modo que, entre nós homens, os mais honestos podem ser enganados por velhacos. Pode-se, pois, ser enganado, sem estar obsidiado. A obsessão consiste na tenacidade de um Espírito, do qual não consegue desembaraçar-se a pessoa sobre quem ele atua.

Podem incluir-se nesta categoria os casos de obsessão física, isto é, a que consiste nas manifestações ruidosas e obstinadas de alguns Espíritos, que fazem se ouçam, espontaneamente, pancadas ou outros ruídos.

A obsessão simples é parasitose comum em quase todas as criaturas, em se considerando o natural intercurso psíquico vigente em todas as partes do Universo. Tendo-se em vista a infinita variedade das posições vibratórias em que se demoram os homens, estes sofrem, quanto influem em tais faixas, sintonizando, por processo normal, com outros comensais aí situados.

No momento do sono, encarnados sob o jugo da obsessão simples encontram seus afins – encarnados ou não – com os quais se identificam, recebendo mais ampla carga de necessidades falsas.

Quando despertam, trazem a mente atribulada, tarda, sob incômodo cansaço físico e psíquico, encontrando dificuldade para fixar os compromissos e lições edificantes da vida.

Na obsessão simples, pode-se instalar ideia fixa, que conduz ao intercâmbio mental com outros Espíritos afins. Surgem, como efeito natural, as síndromes da inquietação: as desconfianças, os estados de insegurança pessoal, as enfermidades de pequena monta, os insucessos em torno do obsidiado que soma as angústias dando campo a incertezas, a mais ampla perturbação interior.

b) Fascinação

A fascinação tem consequências muito mais graves. É uma ilusão produzida pela ação direta do Espírito sobre o pensamento do médium e que de certa forma, lhe paralisa o raciocínio. O médium fascinado não acredita que o estejam enganando: O Espírito tem a arte de lhe inspirar confiança cega, que o impede de ver o embuste, ainda quando esse absurdo salte aos olhos de toda gente. Fora erro acreditar que a esse gênero de obsessão só estão sujeitas as pessoas simples, ignorantes e baldas de senso. Dela não se acham isentos nem os homens de mais espíritos, os mais instruídos. Compreende-se facilmente toda a diferença entre obsessão simples e a fascinação. Na primeira, o Espírito que se agarra à pessoa não passa de um importuno pela sua tenacidade e de quem aquela se impacienta por desembaraçar-se. Na segunda, a coisa é muito diversa. Para chegar a tais fins, preciso é que o Espírito seja destro, ardiloso e profundamente hipócrita, porquanto não pode operar a mudança e fazer-se acolhido senão por meio da máscara que toma e de um falso aspecto de virtude. Por isso mesmo, o que o fascinador mais teme são as pessoas que vêem claro. Daí consistir a sua tática, quase sempre, em inspirar ao seu intérprete o afastamento de quem quer que lhe possa abrir os olhos. À medida que o campo mental da vítima cede área, esta assimila não apenas a indução telepática, mas também as atitudes e formas de ser do seu hóspede.

c) Subjugação

A subjugação é uma constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado. Numa palavra: O paciente fica sob um verdadeiro jugo. No painel das obsessões, à medida que se agrava o quadro da interferência, a vontade do hospedeiro perde os contatos de comando pessoal, na razão direta em que o invasor assume a governança. A subjugação pode ser física, psíquica e, simultaneamente, físio-psíquica.

A primeira não implica na perda da lucidez intelectual, porquanto a ação dá-se diretamente sobre os centros motores, obrigando o indivíduo, não obstante se negue à obediência, a ceder à violência que o oprime. Neste caso, podem irromper as enfermidades orgânicas, por se criarem condições celulares próprias para a contaminação por vírus e bactérias ou perturbar-se o anabolismo como o catabolismo. No segundo caso, o paciente vai sendo dominado mentalmente, tombando em estado de passividade, não raro sob tortura emocional, chegando a perder por completo a lucidez. Perde temporária ou definitivamente durante a sua atual reencarnação a área da consciência, não se podendo livremente expressar. Por fim, assenhoreia-se simultaneamente dos centros do comando motor e domina fisicamente a vítima, que lhe fica inerte, subjugada, cometendo atrocidades em seu nome.

A subjugação é também chamada de possessão, uma vez que há domínio mais severo do obsessor sobre o obsidiado. Se na obsessão o desencarnado age externamente, com auxílio do seu perispírito, na possessão ele se substitui, por assim dizer, ao Espírito encarnado; toma-lhe o corpo para domicílio, sem que este, no entanto, seja abandonado pelo seu dono. Agindo assim, o Espírito desencarnado constrange o encarnado a ver, a falar e a agir, ao mesmo tempo que o sobrecarrega de problemas físicos e morais. Simula uma espécie de posse, daí a expressão possessão.

Ouvindo a mensagem em caráter telepático, transmitida pela mente livre (desencarnado), começa aceder ao apelo que lhe chega, transformando-se, por fim, em diálogos nos quais se deixa vencer pela pertinácia do tenaz vingador. Justapondo-se sutilmente cérebro a cérebro, mente a mente, vontade dominante sobre vontade que se deixa dominar, órgão a órgão, através do perispírito pelo qual se identifica com o encarnado, a cada cessão feita pelo hospedeiro, mais coercitiva se faz a presença do hóspede, que se transforma em parasita insidioso, a simbiose esdrúxula, em que o poder da fixação da vontade dominadora consegue extinguir a lucidez do dominado, que se deixa apagar.

3 – Loucura e Obsessão

Todas as graves preocupações do Espírito podem ocasionar loucura. A loucura provém de um certo estado patológico do cérebro, instrumento do pensamento. Estando o instrumento desorganizado, o pensamento fica alterado. A loucura é, pois, um efeito consecutivo, cuja causa primária é uma predisposição orgânica, que torna o cérebro mais ou menos acessível a certas impressões. Esse fato é tão real que encontramos pessoas que desenvolvem grande atividade mental e nem por isso apresentam sintomas de loucura. Outras porém, ao influxo da menor excitação nervosa, apresentam sinais de perturbação mental. Existindo uma predisposição para a loucura, toma esta o caráter de preocupação principal, que então se torna ideia fixa; esta poderá ser a dos Espíritos, num indivíduo que deles se tenha ocupado, como poderá ser a de Deus, dos anjos, do diabo, da fortuna, do poder, de uma ciência, da maternidade, de um sistema político ou social. É provável que o louco religioso se tivesse tornado um louco espírita, se o Espiritismo fosse a sua preocupação dominante. É muito diáfana a linha divisória entre a sanidade e o desequilíbrio mental. Transita-se de um para outro lado com relativa facilidade, sem que haja, inicialmente, uma mudança expressiva no comportamento da criatura.Ligeira excitação, alguma ocorrência depressiva, uma ansiedade, ou um momento de mágoa, a escassez de recursos financeiros, o impedimento social, a ausência de um trabalho digno, entre muitos outros fatores, podem levar o homem a transferir-se para a outra faixa de saúde mental, alienando-se, temporariamente, e logo podendo retornar à posição regular, à de sanidade.

No aprofundado estudo da etiopatogenia da loucura, não se pode mais descartar as incidências da obsessão, ou predomínio exercido pelos Espíritos desencarnados sobre os homens. Tendo-se em vista o estágio atual de crescimento moral da Terra e daqueles que a habitam, o intercâmbio entre as mentes que se encontram em mesma faixa de interesse é muito maior do que um observador menos cuidados e menos preparado pode imaginar. Atraindo-se pelos gostos e aspirações, vinculando-se mediante afetos doentios, sustentando laços de desequilíbrios decorrente do ódio, assinalados pelas paixões inferiores, exercem constrição mental, e, às vezes, física naqueles que lhes concedem as respostas equivalentes, resultando variadíssimas alienações de natureza obsessiva.

4 – Mediunidade e desequilíbrios mentais

A prática mediúnica não produz loucura como supõem algumas pessoas que desconhecem os ensinamentos espíritas. A mediunidade não produzirá loucura quando esta já não exista em germen; porém, existindo este, o bom-senso está a dizer que se deve usar de cautelas sob todos os pontos de vista, portanto qualquer abalo pode ser prejudicial.

Devemos porém, analisar que a prática mediúnica pode oferecer perigos à pessoas imprudentes que não tem preparo doutrinário e não possuem certo equilíbrio moral, necessários à neutralização das influências obsessivas. Daí ser necessário investir no preparo do trabalhador do grupo mediúnico, promovendo melhor seleção de participantes que deverão compor a equipe da reunião. Esses perigos, entretanto, têm sido muito exagerados. Em todas as coisas há precauções a adotar. A Física, a Química e a Medicina exigem também prolongados estudos, e o ignorante que pretendesse manipular substâncias químicas, explosivos ou tóxicos, poria em risco a saúde e a própria vida. Não há uma só coisa, conforme o uso que dela fizermos, que não seja boa ou má. É sempre injusto salientar o lado mau das práticas espíritas sem assinalar os benefícios que delas resultam e que sobrepujam consideravelmente os abusos e as decepções.

5 thoughts on “OBSESSÃO; TIPOS E GRAUS

  1. Luiz Alberto Ferraz Alvim says:

    Excelente! É com comentários assim que avançamos em nossos conhecimentos. Sou um estudioso do Espiritismo, também médium de cura. Em nossas sessões de obsessão muita coisa que lemos nos ajuda a favorecer aquele irmão obsidiado.

    Considero um presente e tanto. Só tenho de agradecer!

  2. Caetano Rodrigues says:

    Excelentes elucidações a respeito de um tema importante!
    Só gostaria que, se possível, colocasse o nome do irmão (ã,s) que escreveu ou fez o estudo.
    Atenciosamente.

  3. Malu says:

    Só citando a fonte para quem chegar pra pesquisar aqui e precisar de referências, esse conteúdo está disponível na apostila da FEB: Estudo e Prática da MEDIUNIDADE – Orientações espíritas e sugestões direcionadas à formação do trabalhador da mediunidade. Programa I/ Marta Antunes de Oliveira Moura (organizadora). – 1. ed. 1. imp. – Brasília: FEB, 2013.

  4. Anésio Jotta says:

    Quero parabenizar pelo excelente artigo, inclusive com as citações dos casos específicos em obras complementares, o que facilita o entendimento e pesquisa.

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